são duas da manhã, duas pessoas se encontram conversando em um canto no jardim de inverno de uma bela e bem planejada casa em um dos bairros mais nobres da cidade.
– como se chama?
– me chamo R. e você?
– Ulisses, muito prazer.
– igualmente.
na sala de estar, improvisada como pista de dança, Duffy esbanja sua melancolia a uma platéia de intelectuais, alternativos, gays e drogados.
– o que você faz?
– sou designer e você?
– sou ator de teatro.
– legal, está com alguma peça em cartaz?
– não, mas recebi um texto para montar uma peça em novembro…
um novato e um completo desconhecido recebem o bilhete dourado para embarcar neste bizarro e louco mundo a apenas duas horas e meia.
– você é muito lindo sabia?
– obrigado.
– adoro seus olhos azuis, eles brilham na noite…
– obrigado.
– estou morrendo de vontade de te beijar…
(ele avança, viro o rosto e ele beija minha maça esquerda)
a noite é fria, mas não faltam bebidas de todos os tipos e gostos para aquecer e enlouquecer a multidão polvorosa. a dupla, como de costume, ataca apenas os whiskys de boa qualidade.
– me desculpe, mas eu gosto apenas de mulheres.
– é uma pena, na verdade, um desperdício.
(esboço um sorriso compreensivo)
– você me deixa maluco, tem certeza de que você não é gay mesmo?
(ele avança novamente, viro o rosto e recebo um beijo na outra maça)
– sim, tenho certeza.
(olho para meu amigo, ele compreende o sinal e interrompe nossa conversa)
– foi um prazer te conhecer.
– você pode me dar seu telefone?
– fique com meu cartão.
em quase todas os lugares em que vou alguém me pergunta se sou gay. acredito que seja uma pergunta comum, mas a partir do momento em que alguém te pergunta se você tem certeza de que não é gay mesmo, muda o cenário. é o tipo de pergunta, vou além, provocação que não tem volta. é sua confirmação, seu sim ou seu não definitivo.
sempre soube o que era, agora não restam dúvidas. sou hetero, sempre fui e sempre serei.
Mercy – Duffy
(continua…)



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